quinta-feira, 23 de outubro de 2025

Finalmente, Entendi a Providência Divina



 Uma de minhas últimas leituras foi O Conde de Monte Cristo, obra-prima absoluta de Alexandre Dumas. A trama lida com as desventuras de Edmond Dantes que, tragado por uma espiral de injustiças, decide restabelecer a ordem se colocando no lugar da Providência Divina. O que Edmond não percebe é sua confusão interior ao tomar vingança por justiça e, pior ainda, querer se colocar no lugar de Deus. No final, Dantes consegue a tão sonhada redenção através do caminho que o leva à misericórdia e ao amor. 

Outra obra que me fez entender melhor a Providência Divina foi O Grande Teatro do Mundo, de Calderón de la Barca, um dos expoentes máximos do Século de Ouro espanhol. Trata-se de uma trama em torno da alegoria do mundo como teatro, sendo Deus o Autor que organizou o cenário e distribuiu os diferentes papéis entre os homens. Ao contemplar os comportamentos humanos diante das mais variadas circunstâncias da vida, o Autor afirma:

Eu bem poderia corrigir|os erros que estou vendo;|mas para isso lhes dei|arbítrio superior|às paixões humanas,|para não prová-los da ação |de meecer com suas obras;|e assim deixo todos eles|representarem livremente os sus papéis |e naquela confusão |onde atuam todos juntos|vou olhando cada um,|dizendo-lhes minha lei:|Agir bem, pois Deus é Deus.


Corresponder o melhor possível ao papel escolhido por Deus para mim é o que me cabe neste teatro real que é a nossa vida. 

sexta-feira, 3 de outubro de 2025

Mestre da Descrição

 


Na obra seminal Flor do Lácio, Cleófano de Oliveira define DESCRIÇÃO como “uma sequência de análises de linhas, formas, aspectos, cor ou relevo, reproduzindo artisticamente a natureza exterior, de modo que possa ser visualizada, compreendida apreciada pelo leitor (...). É fazer ver e sentir”.

Se você ainda não se deu conta de como isso é difícil de fazer, tente descrever um parafuso ou um palito de fósforo e, certamente, verás o tamanho do desafio. Se é complicado descrever um simples objeto sem vida, uma coisa, o que dizer de imagens em movimento?

Do pouco repertório literário que tenho, uma passagem descritiva reverbera em mim de modo que não posso interromper seus ecos. Trata-se do seguinte trecho de A Mulher de Trinta Anos, de Balzac:


Imediatamente, os tambores rufaram em continência, as duas orquestras começaram por uma frase cuja expressão guerreira foi repetida em todos os instrumentos, desde a mais suave das flautas até o grande tambor. A esse belicoso apelo, as almas estremeceram, as bandeiras saudaram, os soldados apresentaram armas com um movimento unânime e regular que agitou as espingardas da primeira à última fila no Carrousel. 
Ordens de comando irromperam de fila em fila como ecos. Gritos de “Viva o imperador!” foram soltos pela multidão entusiasmada. Tudo enfim fremiu, mexeu, abalou.
Napoleão vinha montado a cavalo. Esse movimento imprimira vida a essas massas silenciosas, dera voz aos instrumentos, arrojo às águias e às bandeiras, emoção a todos os semblantes. Os muros das altas galerias do velho palácio pareciam clamar também: “Viva o imperador!”. Não foi algo de humano, foi uma magia; um simulacro do poder divino, ou melhor, uma fugitiva imagem desse reinado tão fugitivo. O homem rodeado de tanto amor, entusiasmo, dedicação, votos de felicidade, para quem o sol dissipara as nuvens do céu, ficou no cavalo a três passos adiante do pequeno esquadrão dourado que o acompanhava, tendo o grande marechal à sua esquerda e o marechal de serviço à sua direita. No seio de tantas emoções excitadas por ele, nenhum traço de seu semblante pareceu comover-se.


Após a leitura, finalmente pude entender o fascínio causado por Napoleão nas mentes e, sobretudo, nos corações dos franceses. Imediatamente me veio à mente o famoso quadro Bonaparte cruzando os Alpes, de Jacques-Louis David. Balzac nos faz contemplar a cena como se fossemos testemunhas. 


Um Livro Indispensável sobre Cinema

  Poucas obras me impactaram tanto quanto a magnífica A Conversão do Olhar – A Origem Católica do Cinema Moderno , de Rômulo Cyríaco . O aut...