Na obra seminal Flor do Lácio, Cleófano de Oliveira define DESCRIÇÃO como “uma sequência de análises de linhas, formas, aspectos, cor ou relevo, reproduzindo artisticamente a natureza exterior, de modo que possa ser visualizada, compreendida apreciada pelo leitor (...). É fazer ver e sentir”.
Se você ainda não se deu conta de como isso é difícil de fazer, tente descrever um parafuso ou um palito de fósforo e, certamente, verás o tamanho do desafio. Se é complicado descrever um simples objeto sem vida, uma coisa, o que dizer de imagens em movimento?
Do pouco repertório literário que tenho, uma passagem descritiva reverbera
em mim de modo que não posso interromper seus ecos. Trata-se do seguinte trecho
de A Mulher de Trinta Anos, de Balzac:
Imediatamente, os
tambores rufaram em continência, as duas orquestras começaram por uma frase
cuja expressão guerreira foi repetida em todos os instrumentos, desde a mais
suave das flautas até o grande tambor. A esse belicoso apelo, as almas
estremeceram, as bandeiras saudaram, os soldados apresentaram armas com um
movimento unânime e regular que agitou as espingardas da primeira à última fila
no Carrousel.
Ordens de comando irromperam de fila em fila como ecos. Gritos de “Viva o
imperador!” foram soltos pela multidão entusiasmada. Tudo enfim fremiu, mexeu,
abalou.
Napoleão vinha montado a cavalo. Esse movimento imprimira vida a essas massas
silenciosas, dera voz aos instrumentos, arrojo às águias e às bandeiras, emoção
a todos os semblantes. Os muros das altas galerias do velho palácio pareciam
clamar também: “Viva o imperador!”. Não foi algo de humano, foi uma magia; um
simulacro do poder divino, ou melhor, uma fugitiva imagem desse reinado tão
fugitivo. O homem rodeado de tanto amor, entusiasmo, dedicação, votos de
felicidade, para quem o sol dissipara as nuvens do céu, ficou no cavalo a três
passos adiante do pequeno esquadrão dourado que o acompanhava, tendo o grande
marechal à sua esquerda e o marechal de serviço à sua direita. No seio de
tantas emoções excitadas por ele, nenhum traço de seu semblante pareceu
comover-se.
Após a leitura, finalmente pude entender o fascínio causado por Napoleão
nas mentes e, sobretudo, nos corações dos franceses. Imediatamente me veio à
mente o famoso quadro Bonaparte cruzando os Alpes, de
Jacques-Louis David. Balzac nos faz contemplar a cena como se fossemos testemunhas.
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