sexta-feira, 3 de outubro de 2025

Mestre da Descrição

 


Na obra seminal Flor do Lácio, Cleófano de Oliveira define DESCRIÇÃO como “uma sequência de análises de linhas, formas, aspectos, cor ou relevo, reproduzindo artisticamente a natureza exterior, de modo que possa ser visualizada, compreendida apreciada pelo leitor (...). É fazer ver e sentir”.

Se você ainda não se deu conta de como isso é difícil de fazer, tente descrever um parafuso ou um palito de fósforo e, certamente, verás o tamanho do desafio. Se é complicado descrever um simples objeto sem vida, uma coisa, o que dizer de imagens em movimento?

Do pouco repertório literário que tenho, uma passagem descritiva reverbera em mim de modo que não posso interromper seus ecos. Trata-se do seguinte trecho de A Mulher de Trinta Anos, de Balzac:


Imediatamente, os tambores rufaram em continência, as duas orquestras começaram por uma frase cuja expressão guerreira foi repetida em todos os instrumentos, desde a mais suave das flautas até o grande tambor. A esse belicoso apelo, as almas estremeceram, as bandeiras saudaram, os soldados apresentaram armas com um movimento unânime e regular que agitou as espingardas da primeira à última fila no Carrousel. 
Ordens de comando irromperam de fila em fila como ecos. Gritos de “Viva o imperador!” foram soltos pela multidão entusiasmada. Tudo enfim fremiu, mexeu, abalou.
Napoleão vinha montado a cavalo. Esse movimento imprimira vida a essas massas silenciosas, dera voz aos instrumentos, arrojo às águias e às bandeiras, emoção a todos os semblantes. Os muros das altas galerias do velho palácio pareciam clamar também: “Viva o imperador!”. Não foi algo de humano, foi uma magia; um simulacro do poder divino, ou melhor, uma fugitiva imagem desse reinado tão fugitivo. O homem rodeado de tanto amor, entusiasmo, dedicação, votos de felicidade, para quem o sol dissipara as nuvens do céu, ficou no cavalo a três passos adiante do pequeno esquadrão dourado que o acompanhava, tendo o grande marechal à sua esquerda e o marechal de serviço à sua direita. No seio de tantas emoções excitadas por ele, nenhum traço de seu semblante pareceu comover-se.


Após a leitura, finalmente pude entender o fascínio causado por Napoleão nas mentes e, sobretudo, nos corações dos franceses. Imediatamente me veio à mente o famoso quadro Bonaparte cruzando os Alpes, de Jacques-Louis David. Balzac nos faz contemplar a cena como se fossemos testemunhas. 


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