Dia 18
. "No silêncio das horas tumulares/ Há de surgir o espectro funerário."
. "Eis-me esperando o derradeiro trono:/ Que a morte vem de manso, em dia incerto,/ E fecha os olhos dos que têm mais sono..." Alphonsus de Guimaraens
Dia 19 - Ilusões
. Falta pouco para eu cair no sono, encerrando mais um dia de minhas ilusões. Anoiteço eu para o descanso. Ignoro as mágoas do dia, abraço o saudosismo da vida recordada de outras idades.
. Quando criança, ficava na minha, quieto no meu canto. Eu era de uma timidez contemplativa. O que contemplava já não sei ao certo, mas lembro-me dos momentos no sossegado e preciosos imobilismo para melhor pensar.
. Momento sereno: deitado na cama ao som reconfortante do velho ventilador ARNO, cor de abóbora, relíquia da família. Que momento tranquilo que surge sempre em minha memória.
Dia 20 - O início da viagem
. Inspirai-me, ó Musas, a lembrar do início da viagem que me trouxe até aqui. Que eu não seja ludibriado pela falsa memória das coisas, mas conduzido pelo forte vento da lembrança das passadas horas vividas, do momento derradeiro que, mesmo já conhecida há tempos, fetei-a pela primeira vez. Trazei-me esse momento inicial da jornada.
. Trazei-me esse momento inicial que estou como se arrastado fosse por sombrio saudosismo daquilo que nunca mais se repetirá.
. Não quero apenas a imagem do passado, mas também o som, o cheiro, o momento completo em sua concretude. Eis o momento que afugentou a sombra da luxúria que me iludia: "No teu olhar todo o meu sonho andava esparso." Alphonsus de Guimaraens
. Aquela mulher de fidalgo orgulho ainda hoje na minha alma quando a sua imagem. Aquela mulher ergueu uma ermida em m inha pobre alma deserta.
. Alguém me chamará de sentimental saudosista, cabeça nas nuvens, tragado pelo que se foi e não pode voltar. Como posso fugir do passado se busco a eternidade. O passado tem um quê de Eterno, pois está fixo, imóvel, inalterável em toda sucessão de momentos iremediáveis.
Dia 21 - Temporada em neblina
. O ano de 2013 foi perdido para mim. Nestes longínquos dias caóticos de minha vida, eu não sabia ainda, mas já buscava a Tua voz de perdão, Senhor Jesus.
. Pois eu andei por longos anos perdido na voragem dos meus próprios desejos, cobiçando anseios e pavores. Levava meu corpo em mortalha num lodaçal de prazeres.
. Evoco saudades do tempo em que estava preso em mim mesmo para me libertar.
Dia 22 - Recordações
. Lembrei-me de meu pai ao ler os primeiros capítulos de Menino de Engenho, de José Lins do Rego. Para ser mais exato, relembrei o dia em que meu pai chegou em casa carregado por seus companheiros de corpo, pois havia sofrido ataque convulsivo no bar.
. Olho pela janela a chuva caindo. Imagens gotejam em minha memória: lembranças de infância, também de dias úmidos, quando o céu derrama suas lágrimas na terra. Deus deve estar triste, olhando para nós. Tudo são nuvens no céu imenso. Pela janela me sopra o vento intenso. Torrentes de água caem do escuro céu e sonhos em vertigens me vêm em tropel.
Dia 23 - Ecos indecifráveis
. Algo fervilha dentro de mim. Não sei dizer o que é. Preciso ir modelando aos poucos o meu interior para dar voz ao meu silêncio.
. O silêncio brada forte. O seu eco faz-me apreciar a paz dum momento.
. Os espectros do passado ainda estão presentes. Mais uma vez, o silêncio.
Dia 24
. Da minha infância os grandes dias de glória me deram meu vídeo-cassete Philips, meu Nintendo 64 e o tabuleiro de xadrez. Filmes, vídeo-game e xadrez representam a imagem de minha infância.
Dia 25 - Cinema e Literatura em Poemas
1. Nesses restos de vida arde um fogo celeste:/ Passam no teu olhar as longínquas saudades/ Do esquife que deixaste ou do Céu de onde vieste... (Alphonsus de Guimaraens) - Último capítulo de A Morte de Ivan Ilitch, de Tolstoi;
2. História Antiga, de Raul de Leoni - O Segredo dos Seus Olhos;
3. Alma que teve quem dela se recordasse/ Na ignóbil terra infiel onde tudo se esquece:/ Requiescat in pace. (Alphonsus de Guimaraens) - Viver, de Kurosawa;
4. "A única morte bela é a que se oferece voluntariamente pela vida. A grande morte é a que afirma um princípio de vida. Morrer em defesa de alguma coisa essencial à vida... aí está p grande destino do homem." (Galo Branco, p. 272 - Augusto Frederico Schmidt) - O Último Samurai;
5. "Como são mais felizes do que eu esses que partem, que se dão a si mesmos para que a vida continue, para que seja salvo o que deve morrer!" (Galo Branco, p. 272 - Augusto Frederico Schmidt) - O Resgate do Soldado Ryan.
Dia 26 - O Portal para o Passado
. Existem locais cuja atmosfera nos faz retornar ao passado. Lugares que têm o poder de transformar todos os verbos de nossa vida em pretérito mais que perfeito. Para mim, este lugar é a Galeria Santa Rosa.
Dia 27 - Solilóquio
. Após muito pensar, meditando lentamente, saio eu a rabiscar papéis. Impressões, achismos, pretensas certezas... Verborragia inata. Senhor Jesus, livrai-me de mim mesmo.
. "E essas mesmas palavras recolhidas seriam já na origem rigorosamente fiéis às verdadeiras ideias e intuições pensadas e sentidas?" Fidelino de Figueiredo (Símbolos e Mitos).
. Grande alegria senti em meu coração ao ter minha filha ao meu lado em oração.
