sexta-feira, 28 de novembro de 2025

Um Livro Indispensável sobre Cinema

 

Poucas obras me impactaram tanto quanto a magnífica A Conversão do Olhar – A Origem Católica do Cinema Moderno, de Rômulo Cyríaco. O autor expõe a raiz espiritual católica, juntamente com a filosofia fenomenológica, do Cinema Moderno em sua gênese no movimento Neorrealista Italiano. Trata-se de livro obrigatório, e extremamente corajoso, que escancara a matriz espiritual da Sétima Arte através da Trindade Católica: Rossellini, Bresson e Bazin.

Roberto Rossellini foi o grande fundador do Cinema Moderno com o seminal Roma: Cidade Aberta (1945), inaugurando o Neorrealismo Italiano do pós-guerra. O impacto de seus filmes foi tão grande que forjou uma nova maneira de fazer cinema influenciando diversos cineastas, dentre os quais se destacam Vittorio De Sica, com Ladrões de Bicicleta (1948), e Luchino Visconti, com A Terra Treme (1948) consolidando uma nova escola cinematográfica. Rossellini inovou na busca genuína da Verdade (com v maiúsculo) das imagens captadas em seus filmes que, segundo André Bazin, “ele só encena fatos”.

Já o francês Robert Bresson é considerado por Cyríaco como o continuador direto do legado cinematográfico inaugurado por Rossellini. Revelando “uma segunda via estilística possível do cinema moderno”, Bresson entrega verdadeiras preciosidades: Um Condenado à Morte Escapou (1956); O Batedor de Carteiras (1959) e A Grande Testemunha (1966). Segundo Jean-Luc Godard, “Bresson é o cinema francês assim como Dostoievski é a literatura russa e Mozart é a música alemã”.

André Bazin, outro francês, considerado o maior crítico da história do cinema, foi responsável pela base teórica do movimento iniciado por Rossellini. Suas críticas alçaram o Cinema como área digna de estudo sério, lançando os fundamentos filosóficos da Sétima Arte. Segundo Dudley Andrew, “Bazin foi frequentemente descrito como o Aristóteles do cinema, porque foi o primeiro a tentar formular princípios gerais em todos os setores desse campo inexplorado”.

Essa Trindade Católica do cinema moderno, pois todos eles eram católicos, criaram uma nova forma de pensar, criar e fazer filmes. O livro de Rômulo Cyríaco é como um oásis no deserto da biografia cinematográfica brasileira, ainda limitada a análises ideológicas que empobrecem a discussão e, sobretudo, a compreensão sobre Cinema.

 

sábado, 8 de novembro de 2025

Dostoiévski Ensina a Educar os Filhos

 


Resposta à Carta de uma Mãe

Posso ver por sua carta que a senhora é uma boa mãe e se aflige com o desenvolvimento de seu filho; deveria, porém, considerar as coisas por uma perspectiva mais simples. Pergunta-me, por exemplo: “O que é bom, e o que não é bom?”. Ora, a quem podem levar tais questões? Seja boa, e faça com que seu filho perceba que a senhora é boa; deste modo sua obrigação para com ele cumprir-se-á inteiramente, pois lhe terá dado a convicção imediata de que as pessoas têm de ser boas – e ele, então, por toda a vida, terá pela memória materna grande reverência. Tenha certeza de que não há muito mais que a senhora possa fazer por seu filho, além de armá-lo com a lembrança das boas qualidades dos pais – de seu amor à verdade, de sua retidão, da bondade de seu coração e de sua constante relutância diante da mentira.

Seu menino hoje está com oito anos. Mostre-lhe o Evangelho, ensine-o a acreditar em Deus, e isto do modo mais ortodoxo possível. Eis um sine qua non. A senhora não encontrará em parte alguma algo melhor do que o Salvador, esteja certa.

Suponha que seu filho, aos dezesseis ou dezessete anos (após o contato com colegas de escola corrompidos), dirija-se à senhora ou ao seu esposo com a seguinte questão: “Por que eu devo te amar, e por que me dizes que este é meu dever?”. Creia-me, nenhum conhecimento teórico poderá ajuda-la então; a senhora não saberá o que responder. Por isso é que deve tentar viver de tal modo, que jamais ocorra a seu filho fazer-lhe semelhante pergunta. É verdade que na escola pontos de vista deste tipo talvez o seduzam, mas a senhora com facilidade conseguirá separar o falso do verdadeiro; e, mesmo que venha a se deparar com a infeliz pergunta, poderá respondê-la com um sorriso e seguir tranquilamente fazendo seu melhor.

Seu objetivo de jamais desviar-se do caminho da verdade fará com que aqueles ao seu redor reflitam sobre si mesmos. Isto por si só é um grande feito. Assim se pode fazer muito por todos.

Fiodor Dostoiévski. In: E. C Mayne. Letters of Fyodor Michailivitch Dostoevsky to His Family and Friends, pp. 223-225. Tradução livre.

quinta-feira, 23 de outubro de 2025

Finalmente, Entendi a Providência Divina



 Uma de minhas últimas leituras foi O Conde de Monte Cristo, obra-prima absoluta de Alexandre Dumas. A trama lida com as desventuras de Edmond Dantes que, tragado por uma espiral de injustiças, decide restabelecer a ordem se colocando no lugar da Providência Divina. O que Edmond não percebe é sua confusão interior ao tomar vingança por justiça e, pior ainda, querer se colocar no lugar de Deus. No final, Dantes consegue a tão sonhada redenção através do caminho que o leva à misericórdia e ao amor. 

Outra obra que me fez entender melhor a Providência Divina foi O Grande Teatro do Mundo, de Calderón de la Barca, um dos expoentes máximos do Século de Ouro espanhol. Trata-se de uma trama em torno da alegoria do mundo como teatro, sendo Deus o Autor que organizou o cenário e distribuiu os diferentes papéis entre os homens. Ao contemplar os comportamentos humanos diante das mais variadas circunstâncias da vida, o Autor afirma:

Eu bem poderia corrigir|os erros que estou vendo;|mas para isso lhes dei|arbítrio superior|às paixões humanas,|para não prová-los da ação |de meecer com suas obras;|e assim deixo todos eles|representarem livremente os sus papéis |e naquela confusão |onde atuam todos juntos|vou olhando cada um,|dizendo-lhes minha lei:|Agir bem, pois Deus é Deus.


Corresponder o melhor possível ao papel escolhido por Deus para mim é o que me cabe neste teatro real que é a nossa vida. 

sexta-feira, 3 de outubro de 2025

Mestre da Descrição

 


Na obra seminal Flor do Lácio, Cleófano de Oliveira define DESCRIÇÃO como “uma sequência de análises de linhas, formas, aspectos, cor ou relevo, reproduzindo artisticamente a natureza exterior, de modo que possa ser visualizada, compreendida apreciada pelo leitor (...). É fazer ver e sentir”.

Se você ainda não se deu conta de como isso é difícil de fazer, tente descrever um parafuso ou um palito de fósforo e, certamente, verás o tamanho do desafio. Se é complicado descrever um simples objeto sem vida, uma coisa, o que dizer de imagens em movimento?

Do pouco repertório literário que tenho, uma passagem descritiva reverbera em mim de modo que não posso interromper seus ecos. Trata-se do seguinte trecho de A Mulher de Trinta Anos, de Balzac:


Imediatamente, os tambores rufaram em continência, as duas orquestras começaram por uma frase cuja expressão guerreira foi repetida em todos os instrumentos, desde a mais suave das flautas até o grande tambor. A esse belicoso apelo, as almas estremeceram, as bandeiras saudaram, os soldados apresentaram armas com um movimento unânime e regular que agitou as espingardas da primeira à última fila no Carrousel. 
Ordens de comando irromperam de fila em fila como ecos. Gritos de “Viva o imperador!” foram soltos pela multidão entusiasmada. Tudo enfim fremiu, mexeu, abalou.
Napoleão vinha montado a cavalo. Esse movimento imprimira vida a essas massas silenciosas, dera voz aos instrumentos, arrojo às águias e às bandeiras, emoção a todos os semblantes. Os muros das altas galerias do velho palácio pareciam clamar também: “Viva o imperador!”. Não foi algo de humano, foi uma magia; um simulacro do poder divino, ou melhor, uma fugitiva imagem desse reinado tão fugitivo. O homem rodeado de tanto amor, entusiasmo, dedicação, votos de felicidade, para quem o sol dissipara as nuvens do céu, ficou no cavalo a três passos adiante do pequeno esquadrão dourado que o acompanhava, tendo o grande marechal à sua esquerda e o marechal de serviço à sua direita. No seio de tantas emoções excitadas por ele, nenhum traço de seu semblante pareceu comover-se.


Após a leitura, finalmente pude entender o fascínio causado por Napoleão nas mentes e, sobretudo, nos corações dos franceses. Imediatamente me veio à mente o famoso quadro Bonaparte cruzando os Alpes, de Jacques-Louis David. Balzac nos faz contemplar a cena como se fossemos testemunhas. 


domingo, 31 de agosto de 2025

O Talento Natural no Xadrez

 


José Raul Capablanca foi o jogador dotado de maior talento natural da história do xadrez. Foi invencível durante grande parte da sua carreira graças à perfeição de sua técnica. Analisando suas partidas, parece que o xadrez é simples e que a lógica, em seu estado mais puro, resolve qualquer problema. Só outro verdadeiro gênio como Alekhine soube encontrar suas debilidades e demonstrar que ninguém é infalível no xadrez.

Capablanca aprendeu a jogar vendo seus pais, com quatro anos. Durante oito anos não perdeu uma só partida - em toda a sua carreira só perdeu 36 jogos de campeonato. Diz-se que Capablanca era para o xadrez o que Mozart era para a música. O lendário cubano sagrou-se campeão mundial em 1921, após vencer Lasker em Havana, mantendo a coroa do xadrez até 1927 quando foi derrotado por Alekhine. Capablanca jogava com simplicidade, lógica e muita rapidez de cálculo. Possuía uma visão de jogo perfeita. Evitava as complicações, embora possuísse grande domínio tático. Suas principais debilidades era o excesso de confiança em si mesmo além de ser pouco lutador. 

O Jovem Capablanca


Capablanca tinha só 4 anos quando corrigiu seu pai em uma das habituais partidas que jogava em sua casa. Sem que ninguém lhe houvesse ensinado o movimento das peças, aprendendo apenas olhando os outros jogarem. O mais incrível é que, na primeira partida que disputou com o pai, o derrotou para surpresa de todos os presentes.

Além disso, sendo apenas um menino, venceu Corzo e foi considerado o campeão de Cuba. O jovem Capablanca visitou uma pequena cidade cubana onde seu pai tinha negócios. Pela tarde entrou em um cassino onde se jogava xadrez. O campeão daquela localidade perguntou se sabia jogar xadrez, e Capablanca respondeu que sim e que gostaria de jogar com ele. O veterano jogador local lhe ofereceu um cavalo de vantagem (prática habitual na época), que Capablanca aceitou humildemente. A partida foi ganha por Capablanca com grande facilidade. Então, voltaram a jogar com forças iguais, e o jovem Capablanca ganhou novamente com autoridade. O veterano jogador local ficou estupefato e lhe perguntou o nome. Ao reconhecê-lo como campeão cubano, disse:

- Nunca imaginaria que um menino pudesse jogar tão bem.

Anos após, quando Capablanca se tornou campeão mundial, o veterano entrou no cassino gritando entusiasmado:

- Capablanca foi proclamado o melhor jogador do mundo, e eu joguei com ele e até lhe dei um cavalo de vantagem!
 
(Texto retirado do livro O Xadrez dos Grandes Mestres, de Antonio López Manzano e José Monedero González)






segunda-feira, 25 de agosto de 2025

Coração Valente (Braveheart, 1995)

 

O Triunfo do Espírito 

Ao ganhar o grande prêmio do Oscar de melhor filme, em 1996, Coração Valente resgatou a tradição dos grandes épicos feitos por Hollywood nos anos 50 e 60, transformando seu diretor, Mel Gibson – também vencedor do Oscar de Melhor Diretor – numa das principais figuras criativas do cinema americano. O filme é notável tanto pelo fundo épico, quase mítico, quanto pela força do roteiro e da atuação de Mel Gibson. Olhando em retrospecto, a forma como a história de William Wallace é contada seria impensável nos dias atuais, muito por conta do peso simbólico das personagens.

O filme começa em tom mitológico: por entre névoas, surge o título do filme. As Highlands - região montanhosa da Escócia - aparecem quase como a origem do cosmos: a câmera paira sobre a terra como o Espírito pairava sobre as águas no início da Criação. Essa dinâmica de contemplação permanece por todo o filme, reforçada pela clássica trilha sonora de James Horner.

Acompanhamos a luta do povo escocês, durante o século XIII, como pano de fundo em que se desenrola o destino de William Wallace (Mel Gibson). De plebeu pacato, cuja meta de vida era casar-se com a mulher amada, Wallace transforma-se em líder popular que comove o ânimo de seus compatriotas para muito além das simples reivindicações políticas e sociais: a liberdade do espírito em relação à matéria.

Numa das sequências mais memoráveis do longa, temos o discurso de Wallace aos seus reticentes companheiros de batalha:

"Eu sou William Wallace. E estou vendo um exército inteiro de meus compatriotas aqui desafiando a tirania. Vocês vieram lutar como homens livres e livres vocês são! O que vocês farão sem a liberdade? Vocês lutarão?"

A essa pergunta, um dos escoceses responde: "Não. Fugiremos e viveremos". O que vem a seguir é uma das partes altas do roteiro:

"Sim. Lutem e talvez morram. Corram, e viverão. Pelo menos por enquanto. E, morrendo em suas camas, daqui a muitos anos, estariam dispostos a negociar todos os dias daqui em diante por uma única chance, apenas por uma chance, de retornar aqui e dizer aos nossos inimigos que podem tirar nossas vidas, mas nunca tirarão nossa liberdade!"

Wallace evoca às consciências de seus conterrâneos a hierarquia das coisas: a visão da morte demonstra o peso real da existência. A luta pela liberdade política, quando confrontada à luz da morte, ganha novo significado. No final, Wallace escolhe manter-se fiel à sua jornada de liberdade espiritual quando se recusa a jurar lealdade ao Rei inglês.

O grito – “Liberdade!” – ressoa como a afirmação do espírito humano, o sopro divino que poder material algum pode vencer. Neste ponto, Wallace se equipara a Sócrates como um mártir que se sacrifica pela soberania do poder espiritual, interior, do ser humano frente à tirania política.  É o triunfo do Espírito sobre a Matéria, da Alma sobre o Corpo. A última batalha de Walace não foi física, mas espiritual, assim como é para todos nós.






sexta-feira, 8 de agosto de 2025

Como teus filhos se lembrarão de ti?




 Ao ler a biografia de Santa Teresinha do Menino Jesus - A História de uma Alma -, uma passagem deixou profunda marca em mim:

"Encontrando aqui o nome de meu querido paizinho, veem-me naturalmente à memória algumas recordações bem divertidas. Quando ele voltava para casa, invariavelmente, eu corria à sua frente e me sentava numa de suas botas; então ele me levava a passear, quanto eu quisesse, pelos aposentos e pelo jardim. Sorrindo, mamãe dizia que ele fazia todas as minhas vontades: 'Que se há de fazer?', respondia ele. 'É a rainha!' Depois, tomava-me em seus braços, erguia-me bem alto, sentava-me em seu ombro, abraçava-me, fazendo-me toda espécie de carinhos. 

O maior presente que poderia ganhar como pai é que minhas filhas tenham lembranças tão singelas quanto as de Santa Terezinha.

Deus abençoe a todos os pais do Brasil. Santa Teresinha, rogai por nós!!!  

Um Livro Indispensável sobre Cinema

  Poucas obras me impactaram tanto quanto a magnífica A Conversão do Olhar – A Origem Católica do Cinema Moderno , de Rômulo Cyríaco . O aut...