Dia 28 - Um Grande achado
. Recebi hoje a encomenda com os dois volumes do Diário Completo, de Josué Montello, em primorosa edição da Nova Aguilar. Com grata surpresa, li as primeiras linhas já impactado pela fina eloquência do autor no expressar de suas memórias;
. Mestre, são plácidas/ Todas as horas/ Que nós perdemos,/ Se no perdê-las, Qual numa jarra, Nós pomos flores. Fernando Pessoa
. Espero chegar diante do Altíssimo, no dia do meu juízo, e dizer: Procurei ser fiel a Ti ao longo do caminho que me coube percorrer.
. Se tivesse de reviver esta vida, diria São Pedro, repetiria os mesmos erros e paixões, pois foram também eles que me conduziram a Cristo.
. Puxar pela memória as experiências vividas cuja força fez reter o momento que passa, vencendo o efêmero do dia-a-dia. Peneirar a massa informe de situações experimentadas para fixar-se no essencial.
. Presto homenagem e, de fato, reconhecimento à minha companheira e amiga que minha vida ordenou desde 2015. Obrigado, meu amor, por ter fixado este pobre ser ondulante em terra firme.
. "O hábito da confissão religiosa nos liberta de nós mesmos." Josué Montello
. Certas lembranças emergem de minha memória como aparições no mar. Vêm como furiosas ondas a repuxar minha atenção para as sombras do meu passado.
. Por que o murmúrio dum ventilador velho não me sai dos ouvidos até hoje? O que havia de tão especial naquele som que, tal como o canto das sereias, me prende num momento fugaz?
. Durante a minha oração, senti no meu coração essas palavras: Senhor Deus, que o galo cante sempre duas vezes dentro de mim e desperte a minha consciência para os movimentos de traição a Cristo que pululam em minh'alma. E, chorando amargamente, como Pedro o fez, minhas lágrimas sejam correntes de Vossa Graça para purificar meu ser. Senhor Jesus, Filho de Deus, tende piedade de mim que sou um pecador.
Dia 29 - Assombroso Momento
. Com assombro percebi o final da impactante música de Beethoven. Estava a ouvir "Benedictus", da Missa Solemnis. N]ao sei se ouvir seria o verbo apropriado, algo mais profundo acontecia: contemplava o momento que vale por uma vida.
Dia 30 - Onde está minha ermida?
. Preciso encontrar dentro de mim uma ermida. Onde está o lugar sagrado no qual me refugio quando as tentações infernais vêm me asolar? Fecho meus olhos e procuro, mas só vejo deserto. Meu interior é terra árida.
. Olho novamente para dentro e finalmente vejo multidões em ave-marias... Lembranças da infância ainda católica, em Piabetá. Nostalgias das missas ao lado de minha mãe, do catecismo aos sábados, da Primeira Comunhão e Confissão. Recordo-me destes momentos longínquos, eternizados na memória do coração e uma cruel saldade deles me vem.
. A dor imaterial é bem pior que a física. Esta passa, cicatriza, já aquela nem sempre estanca. Seria a saudade um tipo imaterial de dor?
