Dia 11
. Hoje acordei repleto de lembranças. Chove agora mesmo e cada gota me traz uma recordação diferente. São muitas e variadas, chegam a se confundir numa mescla de remotas imagens e sensações. Sinto a necessidade de libertar-me delas, por isso rabisco essas linhas a exemplo do grande Augusto Frederico Schmidt, que era "um modesto rabiscador de suas próprias lembranças".
. Chove lá fora. Chove cá dentro. Os pingos resvalam no vidro da janela. Escorrendo parecem lágrimas.
. Os últimos dias de inverno trazem chuva e certa tensão ampliada pelo Allegro non Molto, de Vivaldi.
Dia 12 - Da nostalgia dos meus dias perdidos
. "Grava na última lágrima toda a desolação vivida." Vinicius de Moraes
. Ouço determinada música e unifico a nostalgia do que passou com o imediatismo dos segundos que se evaporam, numa constante fabricação de novas nostalgias.
Dia 13 - Abismos (Regiões abismais)
. Olhei para dentro de mim mesmo. A potência para todos os pecados enxerguei. Senhor Deus, livrai-me de mim mesmo.
Dia 14 - Almas cinzentas
. Minha alma cinzenta contemplou outras almas cinzentas neste dia nublado. Há dias em que tudo se desbota.
. "Desejo de morrerostalgia da noite dos vales tristes e perdidos." Vinicius de Moraes
Dia 15 - Recordações
. Do irremediável cotidiano busco fugir neste momento para voltar ao bom tempo das recordações. Minha memória é a máquina do tempo que afasta-me do presente em direção às estações longínquas do imóvel passado. Por entre imagens e anseios indefinidos, lá vou eu mergulhando pelo que ainda não foi aniquilado pelo tempo em mim. Alguns me chamarão saudosista. Não é isso, apenas saudade de mim mesmo.
. Nunca ouvi minha tia Aninha gritar. A imagem que tenho dela é angelical, de ser diferente, que está acima dos demais: quase um princípe Michkin. Jamais a esquecerei como exemplo de serenidade e compaixão. Lamento não ter dito a ela o quanto a admirava e o quanto foi importante pra mim. Na verdade, o que mais me incomoda é não ter dito que a amava como um filho ama a mãe. Minha querida e amada tia Aninha, ofereço o terço de hoje por sua alma.
Dia 16 - De onde me sangra
. Por que escrevo estas linhas? Escrevo porque quero estancar com palavras onde me sangra. Mas como poderei fazê-lo se as palavras que uso vêm, justamente, de onde me sangra.
. O que plantaram nas vastidões remotas do meu ser as várias damas que por mim passaram? Pecados... Pecados... Pecados... que me anunciaram presságios de morte, resquícios do que fiz nas horas mortas do tempo que não soube aproveitar.
. Por meu rosto escorreu em água o meu coração.
. O século XX já era octogenário quando nasci.
Dia 17
. "E temo, e temo tudo, e nem sei o que temo./ Perde-se o meu olhar pelas trevas sem fim./ E ao sentir-me no horror do caos, como um blasfemo,/ Não sei por que padeço, e choro, e anseio assim." Alphonsus de Guimaraens
. Os poetas me ajudam a decifrar-me. Um poema é o registro duma inspiração cuja intuição capta como um relâmpago. Anúncio imperfeito da iluminação temporária que a intuição do poeta vislumbra.
. Como quem se recorda, olhei da minha os caminhos percorridos. Mesmo depois de tantos anos passados, seguiria o mesmo trajeto de amarguras e desesperanças. Foi o preço que paguei para hoje estar no lugar onde deveria estar.
. Nossos corpos em fúria na luxúria me alucinaram.
