domingo, 25 de outubro de 2026

Reminiscências de Setembro/2026 (III)

 Dia 11

. Hoje acordei repleto de lembranças. Chove agora mesmo e cada gota me traz uma recordação diferente. São muitas e variadas, chegam a se confundir numa mescla de remotas imagens e sensações. Sinto a necessidade de libertar-me delas, por isso rabisco essas linhas a exemplo do grande Augusto Frederico Schmidt, que era "um modesto rabiscador de suas próprias lembranças".

. Chove lá fora. Chove cá dentro. Os pingos resvalam no vidro da janela. Escorrendo parecem lágrimas.

. Os últimos dias de inverno trazem chuva e certa tensão ampliada pelo Allegro non Molto, de Vivaldi. 


Dia 12 - Da nostalgia dos meus dias perdidos

. "Grava na última lágrima toda a desolação vivida." Vinicius de Moraes

. Ouço determinada música e unifico a nostalgia do que passou com o imediatismo dos segundos que se evaporam, numa constante fabricação de novas nostalgias.


Dia 13 - Abismos (Regiões abismais)

. Olhei para dentro de mim mesmo. A potência para todos os pecados enxerguei. Senhor Deus, livrai-me de mim mesmo.


Dia 14 - Almas cinzentas

. Minha alma cinzenta contemplou outras almas cinzentas neste dia nublado. Há dias em que tudo se desbota.

. "Desejo de morrerostalgia da noite dos vales tristes e perdidos." Vinicius de Moraes


Dia 15 - Recordações

. Do irremediável cotidiano busco fugir neste momento para voltar ao bom tempo das recordações. Minha memória é a máquina do tempo que afasta-me do presente em direção às estações longínquas do imóvel passado. Por entre imagens e anseios indefinidos, lá vou eu mergulhando pelo que ainda não foi aniquilado pelo tempo em mim. Alguns me chamarão saudosista. Não é isso, apenas saudade de mim mesmo. 

. Nunca ouvi minha tia Aninha gritar. A imagem que tenho dela é angelical, de ser diferente, que está acima dos demais: quase um princípe Michkin. Jamais a esquecerei como exemplo de serenidade e compaixão. Lamento não ter dito a ela o quanto a admirava e o quanto foi importante pra mim. Na verdade, o que mais me incomoda é não ter dito que a amava como um filho ama a mãe. Minha querida e amada tia Aninha, ofereço o terço de hoje por sua alma.


Dia 16 - De onde me sangra

. Por que escrevo estas linhas? Escrevo porque quero estancar com palavras onde me sangra. Mas como poderei fazê-lo se as palavras que uso vêm, justamente, de onde me sangra. 

. O que plantaram nas vastidões remotas do meu ser as várias damas que por mim passaram? Pecados... Pecados... Pecados... que me anunciaram presságios de morte, resquícios do que fiz nas horas mortas do tempo que não soube aproveitar.

. Por meu rosto escorreu em água o meu coração.

. O século XX já era octogenário quando nasci.


Dia 17 

. "E temo, e temo tudo, e nem sei o que temo./ Perde-se o meu olhar pelas trevas sem fim./ E ao sentir-me no horror do caos, como um blasfemo,/ Não sei por que padeço, e choro, e anseio assim." Alphonsus de Guimaraens

. Os poetas me ajudam a decifrar-me. Um poema é o registro duma inspiração cuja intuição capta como um relâmpago. Anúncio imperfeito da iluminação temporária que a intuição do poeta vislumbra.

. Como quem se recorda, olhei da minha os caminhos percorridos. Mesmo depois de tantos anos passados, seguiria o mesmo trajeto de amarguras e desesperanças. Foi o preço que paguei para hoje estar no lugar onde deveria estar.

. Nossos corpos em fúria na luxúria me alucinaram.

 

 

quarta-feira, 21 de outubro de 2026

Os Valores Vividos por Viktor Frankl


A partir da definição das Três Categorias de Valores de Viktor Frankl, destaquei os seguintes eventos de sua vida enquanto prisioneiro em campos de concentração nazista, relatados no livro Em Busca de Sentido.     

Valor Criativo

“Eu passava horas criando discursos mentais. Por fim, comecei a refazer o manuscrito que eu tinha perdido na câmara de desinfecção em Auschwitz, rabiscando em pequenos pedaços de papel as palavras-chave em notação estenográfica.” (p. 60)

Diante da dura realidade de prisioneiro do inferno dos campos de concentração nazistas, Frankl manteve-se desperto para a ação produtiva e criativa de sua vida anterior aos horrores da Segunda Guerra. Sua admirável dedicação à obra já começada mas fatalmente perdida quando entrou na prisão do primeiro campo de concentração, demonstra a importância do trabalho para a solidez mental em momentos de pressão e frustração existencial.

 

Valor Vivencial

“Se alguém visse nossos semblantes durante aquela viagem de Auschwitz para um campo da Baviera, quando avistávamos, pelas pequenas janelas gradeadas do vagão de prisioneiros, as montanhas de Salzburgo com seus cumes brilhando ao pôr-do-sol, tal pessoa jamais acreditaria que estes homens que haviam abandonado toda a esperança de viver e conhecer de novo a liberdade. Apesar desse fator – ou, quem sabe, por causa dele -, éramos tomados pela beleza da natureza, da qual há tanto tempo sentíamos falta. (p. 64)

Há de se despojar de certa bagagem existencial para, sem o peso que antes tirava nossa atenção, contemplarmos a beleza que nos envolve. Frankl percebeu isso através da simples percepção visual de algo prosaico: montanhas. Montanhas que brilhavam ao pôr-do-sol com um brilho tão intenso capaz de ofuscar as miseráveis condições dos prisioneiros.

 

Valor de Atitude

“O sentimento desagradável que se apossara de mim, tão logo eu dissera ao amigo que fugiria com ele, se intensificou. E então, subitamente, decidi tomar as rédeas do meu destino ao menos uma vez. Corri para fora do barracão e disse ao amigo que não poderia ir com ele. Tão logo eu disse, convicto, que tinha decidido ficar com meus pacientes, o sentimento de infelicidade se foi. Eu não sabia como seriam os dias seguintes, mas havia conquistado uma paz interior que jamais sentira antes.”

Por tomar as rédeas do destino, Frankl indica a capacidade humana de mudar a si próprio diante de algo, duma realidade, que já não se pode mudar. O ponto aqui não é fugir do sofrimento, mas encará-lo da maneira mais nobre possível: ser digno apesar do sofrimento. Eis a última das liberdades humanas – ser livre para sofrer.


quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Reminiscências de Setembro/2026 (II)

 Dia 7 - Início dos Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola

. O pecado ou defeito particular em questão: IRA;

. Percebui a necessidade de incluir a gula, pois perdi o controle agindo com impulsividade em relação a comida;

Antes de dormir, li o poema Aurora, de Drummond,. Que os Exercícios Espirituais sejam para mim nova aurora. Estava bêbedo espiritualmente, inconsciente, e eis que Santo Inácio me convida a dançar com Nosso Senhor. Desse modo, "a morte virá depois como um sacramento".


Dia 8 - Segundo dia dos Exercícios Espirituais

. Consegui controlar a gula e a ira. Preciso desligar-me mais do celular, principalmente durante a noite;

. "A guerra terminou ontem mas ainda há batalhas dentro do peito que estão reclamando heróis." (Drummond - Grande Homem, Pequeno Soldado);

. Dai-me a graça, Senhor, de sempre lembrar das vezes que me fui destruindo no pecado. Dai-me a graça, Senhor, do não esquecimento de minhas faltas para não cair em perdida esperança.

. Contamos nossa história em cada gesto consumado no tempo. Os segundos marcham um após o outro; as horas se acumulam enfileirando dias, empurrando as semanas, alterando os anos que começam já a pesar sobre minha calvície. Cheguei ao "meio do caminho", finalmente. Tenho algumas selvas escuras em que me perdi.


Dia 9 - "No Coração das nossas vidas desaparecidas..."

. Que imagem fazemos de nosso passado? Duas recordações fixaram-se em minha memória, ambas relacionadas com cinema: assistir ao filme Doutor Jivago ao lado de minha mãe e meu primeiro pesadelo após assistir Sexta-Feira 13.


Dia 10 - Sem inspiração

. Serei breve, pois um tropel de imagens misturadas com palavras povoam meus pensamentos neste moemnto.

. Causa-me um certo alheamento das coisas que estão fora de mim. Fico como que em suspensão, sem conseguir me deter num pensamento preciso.

. Esse estado e confusão interna aparente faz-me renovar minha féem Deus na figura de Nosso Senhor. Coloco-me imaginativamente no lugar de São Tomé: que privilégio foi tocar a carne sacrossanta dque nos alimenta e nos salva. 

. Com esta imagem tão concreta, liberto-me da minha prisão mental, contemplando as chagas de Cristo. 

sábado, 3 de outubro de 2026

Reminiscências de Setembro/2026 (I)

 Dia 01 - Recomeço

. É preciso ter paciência em recomeçar a partir do erro, ou melhor, apesar do erro. O recomeço requer paciência, pois é preciso conviver com o peso da falha, do fracasso. Ter calma e esperar até que tudo isso amadureça no íntimo a ponto de não mais ser ferida que sangra e dói. Paciência para transfigurar remorso em arrependimento e, assim, alcançar o perdão divino.

. Como é possível guardar segredo de si mesmo? Escondê-lo da lembrança. Assim não há remorso, muito menos arrependimento.


Dia 2 - Devaneios nada sutis da Alma que vos escreve!

. Olho pra trás em busca de ocultas riquezas do meu passado. Consegui assegurar alguma forma do que vivi? Há, por mais breve que tenha sido, algo definitivo gravado em mim esperendo por ser achado. Talvez possa encontrá-lo se permaneço em confidência comigo mesmo.

. Livraste-me das ilusões do sexo, dura prisão.

. Fragmentos de Resíduo, de Carlos Drummond de Andrade: "De teu áspero silêncio um pouco ficou"; "E de tudo fica um pouco"; O insuportável mau cheiro da memória". 


Dia 3 - Meu pretencioso Eu

. Pedi a Deus ajuda para perdoar-te. Logo percebi minhas misérias e vi que eu era quem precisava de perdão.

. Obrigado, Senhor, por Vossa Misericórdia que nos redime e nos faz enxergar verdadeiramente quem somos.

. O que instigou minha memória a buscar o mais fundo de meus tempos passados? Tudo o que vejo é como um rastro de coisas que já não existem porque passaram. 

. Pensando bem o passado concentra o mais precioso da vida: aquilo que não pode ser alterado. Para o bem ou para o mal, ainda que haja desencanto daquilo vivido, é o inalterável trajeto feito por ti. 

. Como ensinou o grande Viktor Frankl, se não é possível alterar o passado o que resta é alterar a si mesmo.


Dia 5 - Aparentes contradições

. Aceito a escuridão noturna em busca da luz do dia vindouro. Espero que a noite leve as desordes da vez.

. "E difícil é ruminarmos nossa verdade".


Dia 6 - Andarilho adolescente

. Eu caminhava sem pressa e solitário quando adolescente. Gostava de andar pelas ruas do bairro onde morava. Não ia de todo sozinho, carregava meu walkman.

. Poesia, de Carlos Drummond de Andrade:

Gastei uma hora pensando um verso/ que a pena não quer escrever/ no entanto ele está cá dentro/ inquieto, vivo./ Ele está cá dentro/ e não quer sair./ Mas a poesia deste momento/ inunda minha vida inteira.



sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Reminiscências de Agosto

 Dia 28, sexta-feira

. Mais uma madrugada voraz. Recomecei meu relato, minhas inquietações ardorosas, de antigos mistérios do meu passado. 

. Busquei alento no passado à minha alma desesperada. Quanta esperança e pretensão em buscar lá atrás o que se espera no porvir.

. O temo é uma esfinge sofisticada: só o que temos é o agora espremido pelo que se foi e o que será. Vivemos num eterno "já". 

. Pergunto ao tempoe ele me responde: Eternidade! Eis o supremo desafio de perceber o que não passa no meio das coisas que passam.

. Um aborrecimento trivial é suficiente para iniciar certa tensão libertadora: Tensão - Inquietação - Libertação. 


Dia 30, sábado 

. Senhor Jesus, livrai-me de mim mesmo. Sou apenas um homem que vê sem comprender. Sei apenas que existo: algo há, dizia Mario Ferreira.

. Olho para dentro de mim e confundo mente e consciência. A mente é muito pequena para a consciência.

. Os pensamentos vêm soltos e, quando entrelaçados estão,  se dissolvem. Mas esses pensamentos deixam rastros em mim, caminhos que facilitarão incursões na alma. O que encontrei por lá não sei. 

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Logoterapia em Cena #1

 Forrest Gump - o contador de histórias (1994)


Aquele que sabe amar

Dirigido por Robert Zemeckis, Forrest Gump - O Contador de Histórias nos brinda com um belo exemplo das definições de amor dadas por Viktor Frankl. O longa conta a trajetória de vida do protagonista homônimo que em muito se parece com o Princípe Michkin,  personagem  do livro O Idiota, de Dostoievski. Ambos são criaturas inocentes tentando viver num mundo corrompido. Forrest aproveita ao máximo as oportunidades de valor oferecidas pelas circunstâncias. Teve uma vida plena porque voltada para o outro e não fechada em si mesma.

Com sua simplicidade e coragem, Forrest Gump não se deixa vencer pelas dificuldades, físicas e psicológicas, cumprindo suas obrigações com o máximo de empenho, indo sempre além das expectativas, fazendo o bem e impactando a vida de todos ao seu redor. Bem sucedido em tudo o que faz, Gump inspira as pessoas nos mais diferentes aspectos existenciais: de astro do futebol, passando por herói de guerra e celebridade nacional, até capitão de barco. 

Mas dentre todos os feitos de Forrest o mais importante foi o seu amor por Jenny, sua fiel companheira dos tempos de escola. O amor perpassa toda a trajetória de Forrest em seu relacionamento com Jenny. Desde o primeiro olhar, Forrest percebe o amor enquanto feitiço que, segundo Frankl, mergulha aquele que ama “numa nova valiosidade”, ou seja, “o cosmo inteiro torna-se para ele mais vasto e mais profundo na sua valiosidade”. Essa percepção fica clara quando Forrest relembra o dia em que conheceu Jenny: “Nunca tinha visto nada mais lindo em toda a minha vida. Ela parecia um anjo”. 

Forrest captou a pessoa espiritual de Jenny desde o primeiro momento que a viu e, por isso, a amou independente das circunstâncias. É o “homem profundo” que, segundo Frankl, vê a superfície da pessoa amada como mera expressão da profundidade da pessoa espiritual. O amor de Forrest salva Jenny de viver uma vida totalmente banal, de não deixar sementes, duradouras marcas de si no mundo. Já no fim de sua vida, Jenny é agraciada com um filho de Forrest que sempre manteve-se fiel a seu amor por ela, esperando-a com paciência.

Temos o momento do amor enquanto milagre quando, segundo Frankl, “uma pessoa nova entra na vida” dos amantes. Essa novidade coroa a existência de Forest porque era a única realização que lhe faltava para tornar sua vida plena: a graça de ser pai. Desse modo, Jenny retribui o amor de Forrest dando-lhe a maior dádiva possível a um ser humano: um filho gerado pelo amor genuíno de dois seres que se amam. Após pedir Jenny em casamento, Forrest diz a frase-chave que resume o filme:

Eu não sou inteligente, mas sei o que é o amor.


Bibliografia: 

FRANKL', Viktor. Psicoterapia e sentido da vida: fundamentos da Logoterapia e análise existencial / Viktor Frankl; Tradução de Alípio Maia de Castro - 6ª ed. - São Paulo: Quadrante, 2016.





sexta-feira, 3 de abril de 2026

Eficiência sem Fadiga – Narciso Irala

 


. O ser humano possui quatro atividades vitais ou, dito de outro modo, quatro tipos de vidas:

1.       Vida Intelectiva: ligada à vida intelectual, tem na atenção sua principal faculdade;

2.       Vida Afetiva: a vida humana sem sentimentos e emoções seria monótona, triste e sem colorido;

3.       Vida Volitiva: Vontade como a “rainha” de nossas faculdades, que tem o poder de comandar a atenção;

4.       Vida Orgânica: fatores somáticos ou corporais que auxiliam a ter maior rendimento com menor fadiga.

. Como melhorar a concentração: Sensações Conscientes (pág. 192);

. Temas relativos à Oração:

·       Concentração (p. 30); Distração (46); Reflexão (p. 76); Memória (96).

·       Afetividade (p. 110); Método de oração afetiva (p. 113);

·       Vontade – como chegar ao “quero” eficaz na oração (p. 122);

·       Conselhos práticos para orar (p. 202);


O Ideal que dá Sentido a Vida

. Tenhamos um grande objetivo na vida, uma finalidade, um resultado nítido, claro e constantemente previsto.

. Que seja prático e realizável a todo instante; em outras palavras, que nos faça viver com unidade e plenitude o momento presente, pois nisto consiste a felicidade.

. Podemos definir o êxito como a realização progressiva de um ideal ou a consecução de um objetivo digno. O êxito pode ser:

·       Temporal: meramente humano, com satisfação passageira e limitada, quando só triunfamos nesta vida ou em empreendimentos temporais (Ideal temporal digno);

·       Transcendental: total, eterno, quando triunfamos na eternidade, onde todas as nobres aspirações do ser humano ficam satisfeitas (Ideal de santidade) – pág. 131 do livro Eficiência sem Fadiga, de Narciso Irala);

. Exercícios práticos que ajudam a encontrar o ideal

·       Responder a seguinte pergunta: O que somente eu, e ninguém mais, pode fazer? (Logoterapia de Viktor Frankl);

·       Imagine que tu estás morto e que um amigo teu conte a tua história de vida. O que tu gostarias que ele escrevesse sobre ti? (Necrológio - COF do Prof. Olavo de Carvalho)





Reminiscências de Setembro/2026 (III)

 Dia 11 . Hoje acordei repleto de lembranças. Chove agora mesmo e cada gota me traz uma recordação diferente. São muitas e variadas, chegam ...