Poucas obras me impactaram tanto quanto a magnífica A Conversão
do Olhar – A Origem Católica do Cinema Moderno, de Rômulo Cyríaco. O
autor expõe a raiz espiritual católica, juntamente com a filosofia
fenomenológica, do Cinema Moderno em sua gênese no movimento Neorrealista
Italiano. Trata-se de livro obrigatório, e extremamente corajoso, que escancara
a matriz espiritual da Sétima Arte através da Trindade Católica: Rossellini,
Bresson e Bazin.
Roberto Rossellini foi o grande fundador do Cinema Moderno
com o seminal Roma: Cidade Aberta (1945), inaugurando o Neorrealismo Italiano
do pós-guerra. O impacto de seus filmes foi tão grande que forjou uma nova
maneira de fazer cinema influenciando diversos cineastas, dentre os quais se
destacam Vittorio De Sica, com Ladrões de Bicicleta (1948), e
Luchino Visconti, com A Terra Treme (1948) consolidando
uma nova escola cinematográfica. Rossellini inovou na busca genuína da Verdade
(com v maiúsculo) das imagens captadas em seus filmes que, segundo André Bazin,
“ele só encena fatos”.
Já o francês Robert Bresson é considerado por Cyríaco como o
continuador direto do legado cinematográfico inaugurado por Rossellini. Revelando
“uma segunda via estilística possível do cinema moderno”, Bresson entrega verdadeiras
preciosidades: Um Condenado à Morte Escapou (1956); O Batedor de Carteiras (1959)
e A
Grande Testemunha (1966). Segundo Jean-Luc Godard, “Bresson é o cinema
francês assim como Dostoievski é a literatura russa e Mozart é a música alemã”.
André Bazin, outro francês, considerado o maior crítico da
história do cinema, foi responsável pela base teórica do movimento iniciado por
Rossellini. Suas críticas alçaram o Cinema como área digna de estudo sério, lançando
os fundamentos filosóficos da Sétima Arte. Segundo Dudley Andrew, “Bazin foi
frequentemente descrito como o Aristóteles do cinema, porque foi o primeiro a
tentar formular princípios gerais em todos os setores desse campo inexplorado”.
Essa Trindade Católica do cinema
moderno, pois todos eles eram católicos, criaram uma nova forma de pensar,
criar e fazer filmes. O livro de Rômulo Cyríaco é como um oásis no deserto da
biografia cinematográfica brasileira, ainda limitada a análises ideológicas que
empobrecem a discussão e, sobretudo, a compreensão sobre Cinema.