segunda-feira, 25 de agosto de 2025

Coração Valente (Braveheart, 1995)

 

O Triunfo do Espírito 

Ao ganhar o grande prêmio do Oscar de melhor filme, em 1996, Coração Valente resgatou a tradição dos grandes épicos feitos por Hollywood nos anos 50 e 60, transformando seu diretor, Mel Gibson – também vencedor do Oscar de Melhor Diretor – numa das principais figuras criativas do cinema americano. O filme é notável tanto pelo fundo épico, quase mítico, quanto pela força do roteiro e da atuação de Mel Gibson. Olhando em retrospecto, a forma como a história de William Wallace é contada seria impensável nos dias atuais, muito por conta do peso simbólico das personagens.

O filme começa em tom mitológico: por entre névoas, surge o título do filme. As Highlands - região montanhosa da Escócia - aparecem quase como a origem do cosmos: a câmera paira sobre a terra como o Espírito pairava sobre as águas no início da Criação. Essa dinâmica de contemplação permanece por todo o filme, reforçada pela clássica trilha sonora de James Horner.

Acompanhamos a luta do povo escocês, durante o século XIII, como pano de fundo em que se desenrola o destino de William Wallace (Mel Gibson). De plebeu pacato, cuja meta de vida era casar-se com a mulher amada, Wallace transforma-se em líder popular que comove o ânimo de seus compatriotas para muito além das simples reivindicações políticas e sociais: a liberdade do espírito em relação à matéria.

Numa das sequências mais memoráveis do longa, temos o discurso de Wallace aos seus reticentes companheiros de batalha:

"Eu sou William Wallace. E estou vendo um exército inteiro de meus compatriotas aqui desafiando a tirania. Vocês vieram lutar como homens livres e livres vocês são! O que vocês farão sem a liberdade? Vocês lutarão?"

A essa pergunta, um dos escoceses responde: "Não. Fugiremos e viveremos". O que vem a seguir é uma das partes altas do roteiro:

"Sim. Lutem e talvez morram. Corram, e viverão. Pelo menos por enquanto. E, morrendo em suas camas, daqui a muitos anos, estariam dispostos a negociar todos os dias daqui em diante por uma única chance, apenas por uma chance, de retornar aqui e dizer aos nossos inimigos que podem tirar nossas vidas, mas nunca tirarão nossa liberdade!"

Wallace evoca às consciências de seus conterrâneos a hierarquia das coisas: a visão da morte demonstra o peso real da existência. A luta pela liberdade política, quando confrontada à luz da morte, ganha novo significado. No final, Wallace escolhe manter-se fiel à sua jornada de liberdade espiritual quando se recusa a jurar lealdade ao Rei inglês.

O grito – “Liberdade!” – ressoa como a afirmação do espírito humano, o sopro divino que poder material algum pode vencer. Neste ponto, Wallace se equipara a Sócrates como um mártir que se sacrifica pela soberania do poder espiritual, interior, do ser humano frente à tirania política.  É o triunfo do Espírito sobre a Matéria, da Alma sobre o Corpo. A última batalha de Walace não foi física, mas espiritual, assim como é para todos nós.






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